Autor: Homero Ottoni
Fonte: Bule Voador
Quase todo debate resulta em algo produtivo ou relevante, mesmo quando as partes acabam sem concordar uma com a outra. O fato de debaterem, exporem suas visões, pode ser suficiente para produzir um efeito positivo em ambos os lados e melhorar, pelo menos, a compreensão que um tem do outro.
Quase. Existem, entretanto, tipos de debate que não levam a lugar algum, não resultam em nada positivo, e às vezes contribuem para piorar as coisas. Por exemplo, debates circulares, baseados em argumentos circulares, raramente ajudam ou esclarecem algo.
Outro problema comum em debates é quando se iniciam com um dos lados, ou ambos, com idéias preconcebidas, falsas, sobre a posição do outro.
Este problema, idéias preconcebidas, e quase sempre falsas, parece ser recorrente no debate entre céticos, cientistas, ateus, e religiosos e mesmo filósofos. E algumas delas surgem em praticamente todo início de debate entre essas visões de mundo. Para que o debate que se segue seja produtivo, é preciso quase sempre esclarecer esses pontos, desfazer a confusão, apresentar as bases que sustentam a posição cética ou científica em termos de convicção, conclusão e argumentação válida, antes mesmo de discutir qualquer questão ou posicionamento.
Por exemplo, uma frase recorrente, que eu já ouvi/li dezenas de vezes é “a ciência pensa que sabe tudo, que tem todas as respostas, que arrogância”!.
Mas como, pensa o lado de cá (cientistas em especial), alguém poderia pensar isso, de uma área de atuação humana que se dedica, “full time”, a enfrentar o desconhecido, o que não sabemos, a lacunas do conhecimento, o misterioso? O que poderia levar uma parcela significativa das pessoas a se enganar de forma tão espantosa sobre o que é a ciência, e qual sua posição real sobre o desconhecido? De onde tiram a falsa impressão que a ciência alega “saber tudo”?
A ciência pensa que sabe tudo?
Um dos motivos, uma origem desse engano, que convenientemente é reforçado sempre que possível, por textos e livros religiosos e de “adversários” da ciência (e até de “filósofos”), pode ser a dificuldade em compreender como a ciência sabe o que sabe, e a defasagem entre a ciência avançada e o conhecimento médio da população.
Quando começamos uma conversa com quem “crê” em algo, em geral este propõe algumas “coisas inexplicáveis”, ou relatos anedóticos, que parecem comprovar ou confirmar essas crenças. Minha prima usou homeopatia e se curou, como você pode não acreditar em homeopatia? Um amigo meu orou e arrumou um emprego na mesma semana, como você explica isso? Conheço um cara que foi no templo e sua rinite crônica acabou, como explica isso?
Conforme a conversa avança, o lado “da ciência” passa a apresentar as explicações, dados, estudos, elementos de convicção, que refutam essa aparente comprovação. Aspectos da psicologia, quando se explica que relatos anedóticos não servem de evidência, questões materiais sobre evidências físicas que são desconhecidas do leigo, estudos que demonstram o erro de alegações da crença, etc, etc.
Nada que não esteja disponível em livros e textos sobre ciência, mas que não são de acesso fácil ou simples para o leigo.
Algum tempo de debate, e chegamos à famigerada alegação: então acha que a ciência já sabe “tudo”, que arrogância!
Não, a ciência não sabe tudo, mas neste ponto de nossa história ela sabe tanta coisa, que o leigo ou cidadão comum não sabe, que é essa a sensação que passa, todas as “dúvidas” que ele tem, que pensa ter, já foram realmente respondidas. As que ainda existem, o muito de desconhecido que ainda há para investigar, é tão mais complexo, que o leigo ou cidadão comum nem mesmo sabe que são desconhecidos.
Eventualmente mesmo o cidadão comum, leigo, chega lá, até essas questões distantes e complexas, ainda misteriosas. A física quântica, o que houve antes do Big Bang, qual a origem da vida, etc.
Mas antes de analisar essas questões, existem alguns aspectos que precisam ser explicados, para que leigos possam entender o porquê da posição cética, científica, sobre estas questões, e sobre mistérios.
O que é um mistério?
Mistério, do grego, mystérion, coisa secreta, desconhecida, que não se sabe. Qualquer coisa que não sabemos pode ser classificada como um mistério. Mas há mistérios e mistérios, e nem sempre algo que não sabemos, um mistério, contém algo surpreendente, fantástico, sobrenatural, uma coisa “secreta”, um segredo. Muitas vezes apenas não há possibilidade de se descobrir o que houve realmente, ou a resposta verdadeira, por falta de elementos simples, comuns como acesso, ou devido à passagem do tempo.
Por exemplo, podemos chamar de “mistério” as últimas palavras de Tutancamon ao morrer. Ou qual a localização exata do túmulo de Agamenon. Ou o que houve realmente 2000 anos atrás, na Palestina.
Mas esses mistérios não escondem algo sobrenatural, fantástico, espantoso, apenas eventos comuns, que a distância histórica no tempo, e a falta de dados, impossibilita desvendar.
Não saber a explicação para algo, não significa que exista algo misterioso (no sentido de sobrenatural ou espantoso) escondido, ou que qualquer explicação sirva. Explicações, do ponto de vista do ceticismo, da ciência, do pensamento racional, exigem evidências para serem aceita como confiáveis ou válidas.
Ao perceber, em um debate, que o “lado da ciência” tem explicações, baseadas em evidências, para muitos dos “mistérios” que, para o leigo, ainda seriam misteriosos, a idéia de que a ciência “pensa saber tudo que há para saber” pode parecer real, válida. Como essa “acusação” recorrente é sempre martelada na cabeça do cidadão comum, em especial pelas religiões (e às vezes até pela filosofia), a reação é esperada, e a sensação de “arrogância” da ciência, parece justificada.
Inexplicado ou inexplicável
Existem coisas que não podem ser explicadas, ou apenas que não foram, ainda, explicadas? Algo, um mistério, é inexplicável, ou apenas inexplicado? E como saber?
Em matemática nós descobrimos a resposta, graças ao Teorema da Incompletudede Godel: há coisas que não podem ser explicadas, decididas. Que nunca poderemos dizer se são verdadeiras ou falsas. Inexplicáveis.
Mas e na física, nas questões materiais sobre o universo? Os que procuram a “teoria de tudo” em geral pensam que só existem coisas ainda não explicadas. Os que duvidam que seja possível encontrar a “teoria de tudo” em geral pensam que existem coisas inexplicáveis.
Entretanto, novamente, mesmo que coisas realmente inexplicáveis existam, isso não justifica a adoção de uma explicação qualquer, para conforto pessoal, ou qualquer outro motivo. Algo inexplicável é, por definição, inexplicável, e qualquer explicação adotada violaria essa definição (e a idéia de inexplicável). Um milagre inexplicável será apenas inexplicável, e não a ação de deus, demônio, Alah, Zeus, ETs telepatas, seres intradimensionais, etc, etc.
Podemos jamais saber quem realmente matou as moças atacadas por Jack, o estripador. É um mistério. Mas não um mistério misterioso, apenas um assassino que foi esperto o suficiente, ou teve sorte o suficiente, para não ser pego (ou, sendo pego, teve dinheiro ou prestígio bastante para não ser levado a julgamento).
Mas esse é o tipo de “mistério” que dá margem a dezenas de “teorias” (no sentido amplo e não científico do termo teoria), palpites, histórias, conspirações. E é exatamente o tipo de explicações que não serão aceitas, pelo menos pelos céticos e historiadores mais honestos, por falta de evidências sólidas, confiáveis.
Um mistério, mas não um “mistério”.
Mente fechada
A partir dessa posição, sobre a existência de coisas inexplicáveis, outra afirmação muito comum é sobre a “mente fechada” de céticos e cientistas, que “não admitem o inexplicável”. O que, como na alegação anterior, não é verdade.
Eu, por exemplo, não vejo nenhum problema com o inexplicável. Na verdade, quem parece ter problemas com o inexplicável em geral é quem acusa cientistas e céticos de terem a mente fechada, e que parecem precisar muito de uma explicação, qualquer explicação. ![]()
Vou usar um exemplo concreto, com que já me deparei muitas e muitas vezes. O diálogo que se segue é quase “literal”, e recorrente:
- Então, você não acredita em OVNIS?!?!
- Na verdade, eu acredito, ou melhor, concluo que existem evidências de OVNIS.
-Ah, que ótimo! Vejo que tem a mente aberta, que entende que os seres de Alpha Centauri, que vem nessas naves interestelares, querem nos ajudar contra…
- Desculpe, mas não acredito em naves espaciais de Alpha Centauri, não vejo evidências que existam e visitem nosso planeta…
-Como assim?! E os relatos, e as abduções?!?! Talvez esteja se confundindo com aquelas “bobagens” de gryas cinzas que querem nos colocar chips e…
-Não acredito em relatos anedóticos, nem vejo evidências de abduções, nem de grays ou greens, sinto muito…
-O que?!?!?!?! Mas o Comandante Ashtar Sheran disse que é verdade, acha que ele está mentindo???
- Sinto, mas não vejo evidências de que Ashtar Sheran seja mais que uma lenda urbana ou ilusão cognitiva e…
- Mas que absurdo, então porque disse que acreditava em OVNIS!?!?! Você mentiu para mim!!
É um esforço, nem sempre com bons resultados, explicar que OVNIS, Objetos Voadores NÃO Identificados, precisam ser, bem, NÃO identificados. Se há uma identificação, por exemplo, são naves interestelares de Alpha Centauri, não são mais OVNIS.
E explicar que embora eu admita, conclua pela existência, de objetos ou luzes no céu, que não têm, no momento, explicação embasada em dados, concreta, material, natural, isso NÃO autoriza a adoção de qualquer outra explicação de nosso gosto (ou por qualquer motivo).
Uma luz no céu, não explicada cientificamente, pode ser até motivo para mais investigação, mas nunca para uma alegação igualmente sem evidências. Se aceitarmos uma explicação sem evidências, precisamos aceitar todas as explicações sem evidência para o mesmo fenômeno, ou explicar por que não o fazemos.
Assim, luzes que voam no céu e não podem ser explicadas por eventos naturais (ainda não
), podem ser naves inter-estelares, ou dispositivos de vigilância de seres intraterrenos (habitantes da Terra Oca), ou reflexos de luz de anjos do Senhor, ou ilusões causadas por demônios de Satã, ou fendas interdimensionais por onde escapam energias livres, etc, etc, etc, tudo o que nossa, imaginativa, mente humana pode criar como explicações. Escolher apenas uma delas, sem nenhuma evidência concreta, não é razoável.
Dessa forma, é preciso entender que aceitar a existência de coisas inexplicáveis ou inexplicadas não significa aceitar qualquer explicação disponível. Na verdade, não é algo lógico, racional, confiável, aceitar uma explicação, qualquer que seja, se esta não apresentar evidências.
Assim, não é devido a ter a “mente fechada” que se recusam as explicações de quem crê para os eventos inexplicáveis, mas pela falta de evidências que sustentem essas explicações.
Fantasmas no pântano
Levamos muito tempo, e foi preciso muito esforço intelectual para aprendermos isso, para entendermos que conhecimento confiável (sobre o universo físico, material, concreto) só pode ser produzido dessa forma. É mais seguro deixar de reconhecer algo real, mas sem evidências, que reconhecer algo cedo demais, que se mostrará falso.
Foi um aprendizado difícil, mas abandonar o “deus-vulcão” foi extremamente importante. E substituí-lo pelo “deus-das-lacunas” não é razoável, ou seguro.
No passado, era um padrão aceitar as explicações disponíveis, para qualquer fenômeno ou evento, bastava que fosse dito por autoridade, ou que fosse uma experiência pessoal. E isso dava bons resultados para boa parte de nossas necessidades, para eventos comuns, cotidianos, de sobrevivência, de relacionamento social, etc.
Mas para eventos mais complexos, fenômenos cuja natureza não era tão evidente, ou facilmente identificável, isso costumava falhar, de forma constante. Se analisarmos as alegações de nossos antepassados, para muitos dos fenômenos que explicamos hoje facilmente, pode parecer que eram tolos, ou estúpidos, que só criavam explicações absurdas.
Nada mais enganoso. Nossos antepassados eram seres humanos, com um poderoso cérebro humano a guiar suas ações e escolhas, e muitos eram tão ou mais inteligentes que alguns dos seres humanos atuais (eu queria escrever que a maioria dos seres humanos atuais, mas ando meio desapontado com meus contemporâneos
). Se criavam explicações absurdas, era apenas por falta de elementos de convicção suficientes, e ferramentas de investigação, que permitissem produzir esses elementos de forma confiável.
Aristóteles, uma das maiores mentes que já surgiu em nossa espécie, escreveu coisas incorretas, absurdas, totalmente sem relação com a realidade. Não por ser estúpido, mas por falta de elementos, dados, que o ajudassem a responder certas questões. Ele dizia, por exemplo, que o cérebro servia apenas para refrigerar o calor corporal.
Isso de forma alguma desmerece a capacidade intelectual de Aristóteles. Poderíamos leva-lo a um simpósio de filosofia, sem nenhum problema, e ele seria um dos principais debatedores. Ele poderia dar aulas em classes sobre ética, e caminhar com desenvoltura em debates sobre política, e mesmo teologia, e dar grandes contribuições em todas essas áreas. Mas ficaria perdido em aulas de ciência, mesmo em escolas de primeiro grau. Qualquer aluno de segundo grau deixaria o gênio Aristóteles boquiaberto, se falasse sobre o que sabe (em geral, pouco, infelizmente) sobre biologia, física, química, astronomia, qualquer área científica da atualidade.
Poderia, por exemplo, explicar a Aristóteles que o Sol é apenas uma estrela, ao redor da qual a Terra órbita, e que todas as outras estrelas são como nosso Sol, gigantescas, ou explicar a Tabela Periódica, os mais de 100 elementos (e não apenas quatro), e cada um desses novos conhecimentos espantaria e maravilharia Aristóteles.
Se nos colocarmos, entretanto, na posição de nossos antepassados, antes do método e das ferramentas da ciência, podemos ver que as respostas eram o que seria possível encontrar na época. E nem é preciso o impacto de uma montanha que explode, que parece ter “mudanças de humor”, e que parece castigar os homens, para imaginarmos alguma “intenção” nesses fenômenos, o deus-vulcão, mas até eventos mais comuns, que hoje são apenas interessantes curiosidades, podiam ser espantosos nesses tempos antigos, e gerar “explicações” espantosas, mas incorretas.
Imagine que vive em um tempo remoto e que precisa atravessar um pântano (ou cemitério) à noite. Ruídos, sons estranhos, a luz da Lua criando sombras e luzes no chão do pântano, entre as árvores, pios, etc.
Nesse ambiente já assustador, em épocas em que o risco era real, e grande, mesmo durante o dia, você caminha, com cuidado. De repente, uma luz, um clarão, uma imagem translúcida, iluminada, sem forma definida, que se move tremeluzindo. Aquilo parece “bailar” na sua frente, e quando, apavorado, você corre tentando fugir, a “coisa” corre atrás de você, mudando, dançando, e você parece ver rostos, mãos, “garras”, tudo ao mesmo tempo.
E de repente tudo acaba, a “coisa” desaparece, desmaterializa em pleno ar, enquanto você corre cada vez mais, quase a ter um ataque cardíaco.
Alguém aqui foi capaz de ler esse relato sem pensar na palavra “fantasma”? Nem eu. Nem ninguém, eu acho.
Mas esse “espantoso” fenômeno, que deve ter sido a origem de lendas sobre espíritos, almas, seres elementais da floresta, fadas e dríades, etc, em diversas épocas e culturas, é apenas algo natural, hoje bem conhecido, o fogo fátuo. Emanações de gases inflamáveis de forma espontânea, resultante da decomposição de materiais orgânicos.
É muito menos impactante, e menos interessante, e se encontrar alguém que passou pela experiência de ser “perseguido” por um espírito de luz em um pântano escuro, e explicar o que realmente ocorreu, provavelmente vai decepcionar a pessoa. Talvez ela se recuse a aceitar a explicação para este mistério, que de alguma forma, mesmo a partir de emoções como medo e pavor, tornavam a vida dela mais interessante, mais importante.
Certo e errado
“Então o que você está dizendo é que é ‘errado’ acreditar em algo apenas por fé, sem evidências, e ‘certo’ acreditar a partir de evidências?”
Não, não estou. Não há nada de “errado” em crer por fé, ou crer em algo sem evidências. Se alguém diz “deus foi lá em casa e me disse que existe vida após a morte e eu acredito”, não há o que discutir, nem se pode dizer que está “errado”. Se alguém diz que “sinto em meu coração que é assim”, também não está “errado”. Nem “certo”.
O que estou defendendo é que, em termos de crenças (conclusões) sobre este universo material, em termos de ter uma resposta mais próxima possível da realidade, é mais CONFIÁVEL esperar por evidências antes de concluir.
Alguém que diz que recebeu deus em casa, e que acredita nele por isso, não está “errado”. Mas se alegar que tem evidências, motivos, para essa crença, estará. Ou precisará demonstrar e sustentar essas evidências.
Estou dizendo que a forma mais confiável, segura, de produzir conhecimento que possa ser apresentado à outra pessoa, demonstrado de forma válida, ou que possa estar mais próximo da realidade deste universo, é a que usa a ferramenta do método científico, da razão, da lógica. Que a fé, a crença sem evidências, pode servir para a pessoa que a tem, mas não para outros.
Que em um debate entre ceticismo, ciência, e religião ou filosofia, a crença ou fé só pode ser apresentada, como argumento ou elemento de convicção, se não for apenas fé, mas se tiver evidências que sustentem a alegação. Evidências materiais. Sem isso, por mais que a parte que crê “saiba” que é verdade, não vai conseguir convencer a parte cética, e a ciência, mas não por esta “achar que já sabe tudo”, nem por terem “a mente fechada”, ou por pensarem que “tudo pode ser explicado”, ou qualquer coisa desse gênero.
Mas sim porque, como escolha racional, lógica, baseada na eficácia das ferramentas intelectuais disponíveis a nossa espécie para validar conhecimento, na confiabilidade que se pode mensurar em relação ao conhecimento assim produzido, adotamos, a partir das regras acima detalhadas, este padrão para conclusão: sem evidências, sem crença.
Ou resumindo, mente aberta, mas não tanto que o cérebro caia para fora
.
Seleção Natural para leigos
Posted by Eric Mendes
Video muito bom, que ensina até para uma criança como funciona a seleção natural:
Por: Octavio da Cunha Botelho
Retirado de Sociedade Racionalista USP
Enquanto que em alguns países, que encabeçam o ranking de melhor qualidade de vida (IDH), medido pela ONU (Holanda, Austrália, Irlanda, Suíça, Reino Unido, Suécia, Finlândia, Canadá e Noruega), o número de pessoas que se declaram religiosas está diminuindo, noutras regiões do mundo este número cresce aceleradamente. Quem está desde muitos anos no meio religioso, ou acompanha a sua história, se lembra dos anos 1960-80, quando muitos jovens desistiam do Cristianismo de seus pais para se juntarem aos novos grupos de misticismo oriental, pois muitos destes jovens tomavam esta decisão porque acreditavam que o Cristianismo era uma religião decadente, destinada a desaparecer em breve. Então, é curioso observar como nos países do topo do ranking do IDH a onda de misticismo oriental diminuiu para dar lugar a um crescente secularismo, enquanto que nos outros países, nas posições seguintes do ranking, o misticismo oriental diminuiu para dar espaço ao ressurgimento do Cristianismo, com exceção dos seguintes países: China, Cuba e Coréia do Norte.
Agora, um fato intrigante nos países onde a religiosidade está crescendo não é só a velocidade deste crescimento, mas surpreendentemente, também o aumento do número de religiosos com alta escolaridade. O Brasil é um deles. Enquanto muitos pensam que religião é assunto para os desinformados, espanta testemunhar atualmente pessoas de alta formação acadêmica, ou mesmo profissionais de sucesso, envolvidos com as religiões tradicionais que, para os jovens das gerações de algumas décadas anteriores, eram instituições moribundas. O resultado é uma polaridade que coloca de um lado os elevados conhecimentos científicos e tecnológicos que fazem as pessoas exercerem suas profissões com brilhantismo, e do outro lado, uma visão de mundo com base em uma mentalidade obsoleta, que as leva a assumir um modo de vida religioso correspondente. O interessante é que, quando conversamos com estas pessoas, é curioso notar o contraste entre o alto nível das suas idéias seculares e das suas conquistas profissionais, com o baixo nível das suas concepções pessoais e da sua visão de mundo, sobretudo quando falam de valores e de religião. Até parece que são pessoas que vivem em duas épocas distintas, ou seja, que profissionalmente vivem no século XXI, mas religiosamente vivem na Antiguidade ou na Idade Média. Elas falam de assuntos seculares com racionalidade e com cientificidade, no entanto, acreditam, ao mesmo tempo, em crenças tão infantis e ingênuas que até parece que não são as mesmas pessoas que estão falando.
Um dos exemplos mais intrigantes na comunidade científica é o de Francis S. Collins, um dos mais respeitados cientistas da atualidade, foi diretor do Projeto Genoma nos anos 2000, porém um cristão devoto. Em seu livro, A Linguagem de Deus (Editora Gente, 2007), é possível notar o brilhantismo de Collins quando fala de Biologia em contraste com a ingenuidade das suas idéias quando fala das suas convicções religiosas. Daí que é curioso questionar porque estas pessoas não transferem os seus conhecimentos científicos, recebidos na sua formação escolar, bem como os seus conhecimentos técnicos de profissão, para a formação de sua visão de mundo e da conseqüente escolha do seu modo de vida. O quando transferem, como no caso de Collins e outros, afirmam não encontrar nenhum conflito. Outros chegam até a fazer conciliações entre as idéias científicas e as crenças religiosas.
Este artigo não pretende analisar a questão acima desde todos os pontos de vista existentes, quer seja o social, o psicológico, o econômico e o político, mas apenas do ponto de vista educacional. Então, resta saber o que, no momento, causa esta distância cultural entre a educação escolar e a visão de mundo das pessoas. Por que elas não são capazes de conciliar seus conhecimentos seculares com sua visão de mundo? Então surgem as perguntas: o que falta para que esta ponte seja feita? Quem seria o responsável na construção desta ponte?
O agente ideal para construir esta ponte, que ligaria a educação escolar com a formação da visão de mundo das pessoas e escolha de modo de vida, é a Filosofia. Uma das razões, que pretendo explicar aqui, é que esta ponte não foi até agora construída com solidez porque as escolas, tanto secundárias como universitárias, bem como a comunidade filosófica em geral, estão repletas de filósofos que são religiosos em sua vida privada (padres, pastores, ex-padres, teólogos, místicos, etc.). De modo que, eles ensinam Aristóteles, os iluministas, Bertrand Russell, Sartre e outros nas escolas para depois ouvirem sermões e rezarem nas igrejas nos finais de semana. Se for certo que o exemplo vem de cima, então qual lado acreditar destes filósofos: o seu ensinamento filosófico nas escolas ou a sua convicção pessoal e religiosa?
O número de escolas com disciplina de Filosofia está aumentado no Brasil, mas este aumento poderá ser inócuo, pois está aumentando também o número de professores carolas. Que efeito terá ensinar Filosofia no horário de aula, e depois o mesmo professor falar de sua admiração pelas crenças religiosas nos corredores da escola nos intervalos das aulas? Qual ensinamento os alunos assimilarão?
Uma vez que as escolas secundárias e as universidades não são capazes de corrigir esta deficiência, aumenta-se, cada vez mais, a formação de grupos, de associações, de ligas e de sociedades seculares e ateístas para tentar cobrir este buraco, que a Filosofia não foi capaz de tapar, por conta do grande número de professores carolas, entre os conhecimentos que os estudantes recebem nas escolas e o aproveitamento dos mesmos para a formação de suas visões de mundo e da escolha do modo de vida. Este trabalho tem de ser feito pela Filosofia, uma vez que a Ciência não é um empreendimento de formação e de julgamento de valores, esta tarefa é da Filosofia, portanto é ela quem tem que construir esta ponte entre o conhecimento científico e a formação de visão de mundo de cada indivíduo, através do juízo de valores seculares. Do jeito que está a situação atual, as pessoas instruídas sabem fazer uso da Ciência e da tecnologia em assuntos seculares, mas na hora de fazer juízo de valores, elas ainda recorrem à religião, pois não aprenderam a fazer estes juízos a partir da cultura secular que receberam na escola, pois esta função cabe à Filosofia.
Por exemplo, segundo levantamentos, o número de pessoas que ainda acredita que o mundo foi criado por deus é muito maior do que o número daquelas que acreditam que o mundo é produto da evolução. Surpreende quando encontramos muitos diplomados em universidades que ainda acreditam na criação divina. A razão da sobrevivência de tal crença pode ser que, ao analisarem a criação do mundo, estas pessoas a associam à vida e, conseqüentemente, a um significado, a um sentido e a uma finalidade para a existência humana, de maneira que não separam o mundo e a vida de um lado e o destino humano de outro. Para elas, o mundo e a vida existem, como se pensava na Antiguidade e na Idade Média, em razão do destino humano. Uma vez que não é o papel da ciência determinar o significado e a finalidade para a vida e o destino humano, as pessoas continuam a se prender às concepções religiosas quando refletem sobre a criação do mundo.
A Filosofia Contemporânea tem a tarefa de esclarecer esta separação entre o mundo e o destino humano, bem como, a de explicar como a cultura religiosa, no passado, criou esta associação, que se tornou tão entranhada na mentalidade humana.
De maneira que, o trabalho destas associações e sociedades de levar a cultura de valores seculares à população será muito penoso, em virtude do estrago deixado pelo mau exemplo dos filósofos carolas. Por exemplo, a Racionalist International, uma associação secular sediada na Índia, mantém um programa, com autorização do governo, através de agentes desta associação que visitam regularmente as escolas secundaristas daquele país, para falar do valor e da importância do pensamento racional e da Ciência, uma vez que lá a Filosofia Ocidental não é ensinada nas escolas. Agora, será que, mesmo com o ensino da Filosofia nas escolas aqui, a implantação de um mesmo programa será necessária e conseguirá reverter a situação? Será possível um dia erradicar a carolice do ambiente filosófico? Bem… só a Evolução sabe!
Ateus Revoltadinhos
Posted by Eric Mendes
Copiado de “A Grande Abóbora”
Desculpem o post longo, mas ele é necessário para explicar completamente meu método e as motivações que me levaram a fazer este trabalho. Os mais apressados podem ler apenas as seções Motivação, Análise e Conclusão, deixando a seção Estatística de lado.
Motivação
Mês passado, a Ana publicou o post Astrologia: se você não acredita, é porque ainda não sabe o suficiente. Nele, ela conta que pessoas que a desconhecem completamente fizeram seu mapa astral e acertaram diversas de suas características. Nas palavras dela,
Eu li 30 páginas sobre mim, escritas por pessoas que nunca tinham me visto antes. E as páginas me descreviam com precisão medonha. Era assustador. E antes que alguém fale em leitura fria, eu adianto – que tal um mapa astral que me dá detalhes da minha relação com meus pais durante a infância e de como isso possivelmente afetou minha vida adulta nos campos A, B e C, e que falou isso como se fosse a psicóloga da minha família?
Cético em relação às suas declarações, comentei:
Estatístico que sou, gostaria de fazer dois testes com mapas astrais.
O primeiro tu já fez, que foi uma descrente receber o próprio mapa astral, analisá-lo e ver se as coisas batem ou não.
O segundo, que não tenho conhecimento se foi ou não realizado por alguém, seria um crente receber o mapa astral de outra pessoa, e ver se as coisas também batem.
Na verdade, os dois testes deveriam ser feitos com um tamanho amostral maior (pelo menos umas 30 pessoas de cada grupo), para termos propriedades estatísticas melhores.
No meio da conversa apareceu Marcelo Del Debbio, um famoso estudioso do ocultismo, que possui uma extensa lista de participações em sociedades de pessoas ligadas a estes temas que não-iluminados como eu não compreendem. Disse ele:
Marcus
Estamos fazendo isso. Comecei com meu sócio, que é um ateu-descrente total, mas fã de Formula-1, que eu odeio.
Ele reuniu para mim a lista de datas de nascimento/local dos 100 pilotos que já venceram uma corrida (ou seja, não basta ser piloto, tem de ser Bom no que faz) e estamos fazendo o levantamento dos planetas/signos de cada um…
temos gente com intervalo de nascimento de 50 anos, de tudo que é país imaginável, ou seja, uma variação enorme de pessoas cuja caracteristica unica é ter vencido uma corrida de F-1Em seguida, fazemos o levantamento estatistico de todos os planetas/signos… se a Astrologia não influencia nada, teremos 1/12 para cada planeta/signo (lembrando que são 1.000 planetas/signos: 10 planetas x 100 pilotos)
Se influenciar, teremos desvios ai… e eu já adianto que espero achar muito Áries, Escorpião e Capricórnio… e pouco Touro, câncer e Peixes.
Vamos ver o que acontece.
Grifo meu.
Isso foi em 14 de abril. Até hoje não havia uma resposta para o questionamento por ele levantado, talvez por sua falta de tempoa para lidar com assuntos mais exatos.
Bem, até hoje.
Estatística
Aqueles que não desejam saber a ciência usada para que eu chegasse à minha conclusão podem pular para a seção Análise.
Em Estatística há o que chamamos de testes de hipóteses. A grosso modo, estes testes servem para nos ajudar a decidir se o(s) parâmetro(s) de interesse de alguma variável aleatória são de fato o que suspeitamos.
Trocando em miúdos: pensem numa moeda. Se eu jogar ela para cima uma vez e cair cara, posso concluir que toda vez que a jogar o resultado será cara?
Claro que não. Preciso de um tamanho amostral maior para concluir algo.
Digamos então que eu jogue esta moeda 10 vezes. Destas 10 vezes, obtive 7 caras e 3 coroas. Posso afirmar que esta moeda é desonesta, isto é, que a probabilidade de dar cara é maior que a de dar coroa?
Eu não afirmaria isto, pois ao lançar uma moeda honesta, a chance de termos exatamente 5 caras em 10 lançamentos é de apenas 24,6%.
O ideal, tanto de acordo com nossa intuição como com a Lei Fraca dos Grandes Números, seria lançar a moeda infinitas vezes, pois quanto mais a lançarmos, mais próximos estaremos do valor exato da probabilidade de cada face.
Mas isso nem sempre é possível, seja pelo custo envolvido ou pela falta de dados.
Mas então, como proceder?
É aí que entram os testes de hipótese. Eu posso afirmar que a probabilidade de dar cara é igual a probabilidade de dar coroa – em notação matemática, P(cara) = P(coroa) – e fazer um teste pra verificar a veracidade desta afirmação.
Assim, é possível tirar conclusões sobre as propriedades de amostras finitas de maneira bastante acurada.
Para este tipo de problema, verificar se as probabilidades (ou proporções) de uma amostra são todas iguais, o ideal é utilizar o Teste Χ2 (lê-se qui-quadrado).
Análise
Tendo a base científica, vamos à análise.
Como base de dados, utilizei a Lista de Vencedores de Corridas da Fórmula 1 disponível na Wikipedia. As datas de nascimento dos pilotos foram todas obtidas no mesmo website, versão em português, sempre que disponível. No total, são 101 pilotos, distribuídos por 12 signos diferentes. Pode parecer uma maneira simplória de separar os pilotos, sem levar em conta ascendentes, luas e afins, mas eu precisava de um critério que mantivesse, pelo menos, cinco pilotos em cada categoria, para que o Teste Χ2 pudesse ser utilizado. Meu tamanho amostral era de apenas 101; por isso, o não tão grande número de categorias.
Assim, o resultado do número de pilotos por signo ficou sendo
Aquário: 7
Áries: 12
Câncer: 14
Capricórnio: 10
Escorpião: 7
Gêmeos: 6
Leão: 6
Libra: 9
Peixes: 8
Sagitário: 6
Touro: 7
Virgem: 9
Para esta análise, a ordem dos signos não importa. Optei pela alfabética porque ficou mais fácil para eu contar os resultados de cada signo desta forma. A planilha utilizada para tal está aqui.
Sabendo que 101/12 = 8.42, os resultados para Áries e Capricórnio, com 12 e 10 pilotos respectivamente, estão mais altos que o esperado, como o Marcelo previu. Já Escorpião, que, segundo ele, também deveria ser alto, decepcionou, ficando em 7 e bem distante de seus já citados pares.
Por outro lado, Touro, Câncer e Peixes não são tão baixos como esperado. Aliás, nenhum dos três signos possui o valor mínimo de ocorrências (6, atingido por Gêmeos, Leão e Sagitário, signos sequer citados por ele). Inclusive Câncer, que segundo o próprio Marcelo, teria energias mais voltadas para o aconchego (nurturing) do que para a disputa, significando que teria um dos piores resultados, foi o signo com o maior número de pilotos vencedores! 14 no total.
Mas estes números sozinhos não dizem nada. Precisei fazer o já citado Teste Χ2 para tirar alguma conclusão. As hipóteses que testei foram
H0: os signos têm a mesma proporção de pilotos vencedores (é o que eu acho)
HA: pelo menos um signo tem proporção de pilotos vencedores diferente dos demais (é mais ou menos o que o Marcelo defende)
Vejam bem: eu não estou testando que todas as proporções de pilotos vencedores em cada signo são diferentes entre si. Note que se apenas uma delas for diferente das demais, não importando qual, a minha hipótese de proporções iguais entre os signos cai por terra.
Como o método científico exige, eu devo relatar todos meus passos paque que meu experimento seja replicado por quem quiser. Para realizar o teste, utilizei o R, software estatístico gratuito disponível para Windows, Linux e Mac OS. Com ele instalado, foi só rodar os comandos
> signos=c(7,12,14,10,7,6,6,9,8,6,7,9)
> chisq.test(signos)
e receber o resultado
Chi-squared test for given probabilities
data: signos
X-squared = 8.4257, df = 11, p-value = 0.6747
Com p-valor=0.6747, não podemos rejeitar H0. Ou seja, a 5% de significância (ou seja, com 95% de certeza), as proporções de pilotos vencedores em cada signo do zodiáco são iguais.
Conclusão
Para reforçar o que foi dito na seção anterior, não há indícios estatísticos que o signo dos pilotos de Fórmula 1 influencie na sua habilidade em dirigir.
Isso quer dizer que eu provei que a Astrologia não funciona? Claro que não. Eu sou um cientista e não faço este tipo de afirmação leviana. O que encontrei foi um caso no qual, através de um ferrramenta estatística bem conhecida, fiz uma experiência bem definidaque concluiu o oposto daquilo que foi alegado pelo astrólogo. Ou seja, pelo menos com o exemplo proposto pelo Marcelo, não há indícios de que Astrologia funcione.
Como complemento, recomendo que leiam Pensamentos sobre Astrologia: fato ou desejo de acreditar?. É outro texto longo, mas o Newton esmiúça, sob um olhar cético, um mapa astral feito especialmente para ele.
Tudo acontece por uma razão?
Posted by Eric Mendes
Quando as pessoas precisam lidar com situações difíceis em suas vidas, às vezes elas se tranquilizam dizendo que tudo acontece por uma razão. Para algumas pessoas, pensar desta forma torna mais fácil lidar com problemas de relacionamento, crises financeiras, doenças, morte e até mesmo desastres naturais como terremotos. Pode ser angustiante pensar que coisas ruins acontecem apenas por acaso ou acidente. Mas elas acontecem.
O provérbio de que tudo acontece por uma razão é a versão moderna, New Age, do antigo provérbio religioso: “É a vontade de Deus.” Os dois provérbios têm o mesmo problema – a completa ausência de evidência de que são verdadeiros. Não só não há boas evidências de que Deus existe, mas não temos maneira de saber o que é que ele (ou ela) queria que acontecesse, diferente daquilo que de fato aconteceu. Deus realmente quis que centenas de milhares de pessoas morressem em um terremoto em um dos países mais pobres do mundo? Qual poderia ser a razão para este desastre e o sofrimento em curso de milhões de pessoas, privadas de comida, água e abrigo? Porque as pessoas acham tranquilizante que o terremoto do Haiti aconteceu por uma razão como a vontade de Deus, quando eventos terríveis como estes sugerem um alto nível de malevolência no universo ou em seu alegado criador? Felizmente, tais eventos podem ser vistos alternativamente (e com boas evidências) como o resultado de acidentes e possivelmente até mesmo do acaso.A ideia de que o acaso é uma propriedade objetiva do universo foi advogada no século dezenove pelo grande filósofo americano Charles Sanders Peirce, o qual chamou esta doutrina de tychism, da palavra grega para o acaso. Embasamento científico para esta doutrina veio no século vinte com o desenvolvimento da teoria quântica, à qual é frequentemente interpretada como implicando que alguns eventos como o decaimento radioativo são inerentemente imprevisíveis.
Mesmo se eventos que afetam as vidas humanas não aconteçam pelo acaso quântico, muitos deles deveriam ser vistos como acontecendo por acaso, no sentido de que eles são o resultado improvável do cruzamento de cadeias causais independentes. As mortes no Haiti, por exemplo, ocorreram por causa do resultado de várias cadeias causais, primeiramente (1) os eventos históricos que levaram milhões de pessoas a viverem perto de Port-au-Prince, e (2) os eventos sísmicos ocorrendo no emaranhado de falhas tectônicas perto da interseção de duas placas da crosta. Estas mortes foram acidentais na medida em que a interseção das cadeias causais desconectadas era imprevisível. Nem a história nem a sismologia são aleatórias, mas suas interseções são tão imprevisíveis usualmente que nós deveriamos chamá-las de acidentais.
A doutrina de que tudo acontece por uma razão tem variações intelectuais. O filósofo alemão Hegel sustentou que no desenvolvimento histórico o real é racional e o racional é real. De forma semelhante, antes dos recentes colapsos no sistema financeiro, era um dogma da teoria econômica que indivíduos e mercados são inerentemente racionais. Alguns biólogos evolucionistas ingênuos e psicólogos assumem que todos os traços e comportamentos comuns devem ter evoluido de um processo de otimização da seleção natural. Na história, economia, biologia e psicologia, nós deveríamos sempre estar dispostos a considerar a evidência para a hipótese alternativa de que alguns eventos acontecem por conta de uma combinação de acaso, acidentes e irracionalidade humana. Por exemplo, Keynes atribuiu crises financeiras em parte aos “espíritos animais”, se referindo aos processos emotivos que podem fazer as pessoas oscilarem entre a exuberância irracional e o desespero pessimista.
Mas se o real não é racional, como podemos lidar com os desastres da vida? Felizmente, mesmo sem religião ou ilusões New Age, as pessoas possuem vários recursos psicológicos para enfrentar as dificuldades da vida. Estes incluem estratégias cognitivas para gerar explicações e soluções para problemas e estratégias emotivas para manejar o medo, a ansiedade e a raiva que naturalmente acompanham contratempos e ameaças. A pesquisa em psicologia tem identificado várias maneiras de aumentar a resiliência de indivíduos e grupos, como desenvolvendo habilidades de resolução de problemas e fortes vínculos sociais. A vida pode ser altamente significativa mesmo se algumas coisas que acontecem são meros acidentes. Coisas acontecem e então você lida com elas.
Fonte: Psychology Today
Autor: Paul Thagard*
Tradução: André Rabelo
*Paul R. Thagard é professor de Filosofia e Diretor do Programa de Ciência Cognitiva da Universidade de Waterloo, no Canadá. Seus livros incluem The Brain and the Meaning of Life,Hot Thought: Mechanisms and Applications of Emotional Cognition e Mind: Introduction to Cognitive Science.
Várias pesquisas indicam que o termo “ateísmo” tornou-se tão estigmatizado nos EUA que ser ateu virou um total impedimento para uma carreira política (de um jeito que sendo negro, muçulmano ou homossexual não é). De acordo com uma pesquisa recente da revista Newsweek, apenas 37% dos americanos votariam num ateu qualificado para o cargo de presidente.
Ateus geralmente são tidos como intolerantes, imorais, deprimidos, cegos para a beleza da natureza e dogmaticamente fechados para a evidência do sobrenatural.
Até mesmo John Locke, um dos maiores patricarcas do Iluminismo, acreditava que o ateísmo “não deveria ser tolerado” porque, ele disse, “as promessas, os pactos e os juramentos, que são os vínculos da sociedade humana, para um ateu não podem ter segurança ou santidade.”
Isso foi há mais de 300 anos. Mas nos Estados Unidos hoje, pouca coisa parece ter mudado. Impressionantes 87% da população americana alegam “nunca duvidar” da existência de Deus; menos de 10% se identificam como ateus — e suas reputações parecem estar deteriorando.
Tendo em vista que sabemos que os ateus figuram entre as pessoas mais inteligentes e cientificamente alfabetizadas em qualquer sociedade, é importante derrubarmos os mitos que os impedem de participar mais ativamente do nosso discurso nacional.
1) Ateus acreditam que a vida não tem sentido.
Pelo contrário: são os religiosos que se preocupam frequentemente com a falta de sentido na vida e imaginam que ela só pode ser redimida pela promessa da felicidade eterna além da vida. Ateus tendem a ser bastante seguros quanto ao valor da vida. A vida é imbuída de sentido ao ser vivida de modo real e completo. Nossas relações com aqueles que amamos têm sentido agora; não precisam durar para sempre para tê-lo. Ateus tendem a achar que este medo da insignificância é… bem… insignificante.
2) Ateus são responsáveis pelos maiores crimes da história da humanidade.
Pessoas de fé geralmente alegam que os crimes de Hitler, Stalin, Mao e Pol Pot foram produtos inevitáveis da descrença. O problema com o fascismo e o comunismo, entretanto, não é que eles eram críticos demais da religião; o problema é que eles era muito parecidos com religiões. Tais regimes eram dogmáticos ao extremo e geralmente originam cultos a personalidades que são indistinguíveis da adoração religiosa. Auschwitz, o gulag e os campos de extermínio não são exemplos do que acontece quando humanos rejeitam os dogmas religiosos; são exemplos de dogmas políticos, raciais e nacionalistas andando à solta. Não houve nenhuma sociedade na história humana que tenha sofrido porque seu povo ficou racional demais.
3) Ateus são dogmáticos.
Judeus, cristãos e muçulmanos afirmam que suas escrituras eram tão prescientes das necessidades humanas que só poderiam ter sido registradas sob orientação de uma divindade onisciente. Um ateu é simplesmente uma pessoa que considerou esta afirmação, leu os livros e descobriu que ela é ridícula. Não é preciso ter fé ou ser dogmático para rejeitar crenças religiosas infundadas. Como disse o historiador Stephen Henry Roberts (1901-71) uma vez: “Afirmo que ambos somos ateus. Apenas acredito num deus a menos que você. Quando você entender por que rejeita todos os outros deuses possíveis, entenderá por que rejeito o seu”.
4) Ateus acham que tudo no universo surgiu por acaso.
Ninguém sabe como ou por que o universo surgiu. Aliás, não está inteiramente claro se nós podemos falar coerentemente sobre o “começo” ou “criação” do universo, pois essas ideias invocam o conceito de tempo, e estamos falando sobre o surgimento do próprio espaço-tempo.
A noção de que os ateus acreditam que tudo tenha surgido por acaso é também usada como crítica à teoria da evolução darwiniana. Como Richard Dawkins explica em seu maravilhoso livro, “Deus, um Delírio”, isto representa uma grande falta de entendimento da teoria evolutiva. Apesar de não sabermos precisamente como os processos químicos da Terra jovem originaram a biologia, sabemos que a diversidade e a complexidade que vemos no mundo vivo não é um produto do mero acaso. Evolução é a combinação de mutações aleatórias e da seleção natural. Darwin chegou ao termo “seleção natural” em analogia ao termo “seleção artificial” usadas por criadores de gado. Em ambos os casos, seleção demonstra um efeito altamente não-aleatório no desenvolvimento de quaisquer espécies.
5) Ateísmo não tem conexão com a ciência.
Apesar de ser possível ser um cientista e ainda acreditar em Deus — alguns cientistas parecem conseguir isto —, não há dúvida alguma de que um envolvimento com o pensamento científico tende a corroer, e não a sustentar, a fé. Tomando a população americana como exemplo: A maioria das pesquisas mostra que cerca de 90% do público geral acreditam em um Deus pessoal; entretanto, 93% dos membros da Academia Nacional de Ciências não acreditam. Isto sugere que há poucos modos de pensamento menos apropriados para a fé religiosa do que a ciência.
6) Ateus são arrogantes.
Quando os cientistas não sabem alguma coisa — como por que o universo veio a existir ou como a primeira molécula autorreplicante se formou —, eles admitem. Na ciência, fingir saber coisas que não se sabe é uma falha muito grave. Mas isso é o sangue vital da religião. Uma das ironias monumentais do discurso religioso pode ser encontrado com frequência em como as pessoas de fé se vangloriam sobre sua humildade, enquanto alegam saber de fatos sobre cosmologia, química e biologia que nenhum cientista conhece. Quando consideram questões sobre a natureza do cosmos, ateus tendem a buscar suas opiniões na ciência. Isso não é arrogância. É honestidade intelectual.
7) Ateus são fechados para a experiência espiritual.
Nada impede um ateu de experimentar o amor, o êxtase, o arrebatamento e o temor; ateus podem valorizar estas experiências e buscá-las regularmente. O que os ateus não tendem a fazer são afirmações injustificadas (e injustificáveis) sobre a natureza da realidade com base em tais experiências. Não há dúvida de que alguns cristãos mudaram suas vidas para melhor ao ler a Bíblia e rezar para Jesus. O que isso prova? Que certas disciplinas de atenção e códigos de conduta podem ter um efeito profundo na mente humana. Tais experiências provam que Jesus é o único salvador da humanidade? Nem mesmo remotamente — porque hindus, budistas, muçulmanos e até mesmo ateus vivenciam experiências similares regularmente.
Não há, na verdade, um único cristão na Terra que possa estar certo de que Jesus sequer usava uma barba, muito menos de que ele nasceu de uma virgem ou ressuscitou dos mortos. Este não é o tipo de alegação que experiências espirituais possam provar.
8 ) Ateus acreditam que não há nada além da vida e do conhecimento humano.
Ateus são livres para admitir os limites do conhecimento humano de uma maneira que nem os religiosos podem. É óbvio que nós não entendemos completamente o universo; mas é ainda mais óbvio que nem a Bíblia e nem o Corão demonstram o melhor conhecimento dele. Nós não sabemos se há vida complexa em algum outro lugar do cosmos, mas pode haver. E, se há, tais seres podem ter desenvolvido um conhecimento das leis naturais que vastamente excede o nosso. Ateus podem livremente imaginar tais possibilidades. Eles também podem admitir que se extraterrestres brilhantes existirem, o conteúdo da Bíblia e do Corão lhes será menos impressionante do que são para os humanos ateus.
Do ponto de vista ateu, as religiões do mundo banalizam completamente a real beleza e imensidão do universo. Não é preciso aceitar nada com base em provas insuficientes para fazer tal observação.
9) Ateus ignoram o fato de que as religiões são extremamente benéficas para a sociedade.
Aqueles que enfatizam os bons efeitos da religião nunca parecem perceber que tais efeitos falham em demonstrar a verdade de qualquer doutrina religiosa. É por isso que temos termos como “wishful thinking” e “auto-enganação”. Há uma profunda diferença entre uma ilusão consoladora e a verdade.
De qualquer maneira, os bons efeitos da religião podem ser certamente questionados. Na maioria das vezes, parece que as religiões dão péssimos motivos para se agir bem, quando temos bons motivos atualmente disponíveis. Pergunte a si mesmo: o que é mais moral? Ajudar os pobres por se preocupar com seus sofrimentos, ou ajudá-los porque acha que o criador do universo quer que você o faça e o recompensará por fazê-lo ou o punirá por não fazê-lo?
10) Ateísmo não fornece nenhuma base para a moralidade.
Se uma pessoa ainda não entendeu que a crueldade é errada, não descobrirá isso lendo a Bíblia ou o Corão — já que esses livros transbordam de celebrações da crueldade, tanto humana quanto divina. Não tiramos nossa moralidade da religião. Decidimos o que é bom recorrendo a intuições morais que são (até certo ponto) embutidas em nós e refinadas por milhares de anos de reflexão sobre as causas e possibilidades da felicidade humana.
Nós fizemos um progresso moral considerável ao longo dos anos, e não fizemos esse progresso lendo a Bíblia ou o Corão mais atentamente. Ambos os livros aceitam a prática de escravidão — e ainda assim seres humanos civilizados agora reconhecem que escravidão é uma abominação. Tudo que há de bom nas escrituras — como a regra de ouro, por exemplo — pode ser apreciado por seu valor ético, sem a crença de que isso nos tenha sido transmitido pelo criador do universo.
- Autor: Sam Harris
- Tradução: Alenônimo
- Fonte: Ateus do Brasil
- Original: 10 myths — and 10 Truths — About Atheism
Usando a cabeça para viver melhor
Posted by Eric Mendes
Como você toma as decisões sobre a sua vida e o futuro da sua família?
Quem é que você acha a pessoa mais apropriada para casar com você?
Quem é que você acha mais apropriado para ser professor do seu filho?
Quem é que você acha mais apropriado para ser o oncologista que vai tratar do câncer de um ente querido?
Quem você escolheria para ser seu sócio num negócio?
Alguém que acredite em tudo o que se diz por aí, que não se preocupa nada em saber se o que ouve é verdade e sai por aí repetindo as coisas que escuta sem verificá-las, ou alguém que é ponderado, que verifica direito e analisa bem as informações que recebe? Qual é a credibilidade que tem alguém que afirma a veracidade das coisas sem comprová-las?
Vamos analisar alguns cenários…
Todos os dias nós tomamos decisões e muitas vezes nem nos damos conta disso. Embora muitas delas possam passar despercebidas, muitas outras causam impactos determinantes em nossas vidas. O mercado de trabalho está a cada dia mais competitivo e se o acesso à informação era antes um privilégio de poucos, hoje ela encontra-se disponível para um grande número de pessoas. Não há lugar ao sol para todos, por isso apenas uns poucos gozarão de estabilidade financeira, enquanto que muitos pagarão pelos erros que cometeram. Nós precisamos estar preparados para tomar as decisões certas a fim de tentar garantir um futuro seguro para a nossa família, pois o mundo poucas vezes oferece uma segunda oportunidade. Nesse artigo tento alertar para algo óbvio, mas que é largamente negligenciado.
1. Primeiro cenário. Vamos supor que às 7h da manhã uma Kombi pare em frente à sua casa, e dela desce um homem que se apresenta como sendo encarregado de um novo serviço prestado pela escola do seu filho, destinado a levar e trazer as crianças à/da escola. Ele te dá uma carta de visitas com um número de telefone e diz que vai levar e trazer seus filhos de graça durante o primeiro mês, começando agora. Depois, se você gostar, pagará por este serviço, um preço bem atraente. Se você não gostar, não precisará pagar por esse mês, que ficará como sendo uma cortesia. Ele diz que o serviço já é utilizado em várias escolas da cidade e do país e que você não foi informado antes, devido a um problema técnico e bla, bla, bla. A questão é: Você entregaria seu filho, sem verificar junto à escola, se aquilo tudo é verdade? Estou certo que não.
2. Segundo cenário. Suponha que um homem bem vestido se apresente no seu local de trabalho com um calhamaço de papel que segundo ele é um contrato de investimento 100% garantido, que rende 10% ao mês. O investimento mínimo é de 500 Reais, que estará disponível depois de um mês, para reembolso integral assim que você quiser. A única condição é receber imediatamente 300 Reais em espécie. Você teria que sacar essa quantia naquele momento para pagar a caução e o restante você pode depositar no máximo em uma semana, numa conta que ele te fornece. Ele mostra uns papéis que dizem que eles atuam em 52 países e foram reconhecidos como o melhor e mais seguro investimento privado nos últimos 5 anos. Ele te propõe ainda assinar um termo, opcional, em que você dá seu carro com garantia pra um investimento VIP onde você obterá 18% de rendimento mensal. Você daria os 300 Reais ou o carro a ele? Suponho que você iria investigar antes, não é mesmo?
3. Terceiro cenário. Um homem que se diz médium aparece na sua casa e diz que você vai ter que lhe pagar 3000 Reais para que ele, através de um trabalho espiritual direcionado evite a morte de seu filho de quatro anos, que segundo ele ocorrerá em menos de um ano. Ele te mostra no celular, uns vídeos de pessoas que o agradecem por terem sido curadas de câncer, de AIDS ou terem escapado de acidentes incríveis. Você pagaria, sem investigar detalhadamente esse assunto? Acho que não.
Porque você investigaria sobre as estórias acima? A resposta é porque você é uma pessoa sensata e não vai arriscar a vida do seu filho ou o seu patrimônio sem ter uma prova segura de que aquilo é verdade e de que funciona.
Corre pela internet um e-mail que oferece às pessoas a oportunidade de ganhar alguns milhares de dólares sem ter que trabalhar. Esse e-mail pede uma ajuda para liberar uma soma importante de dinheiro, bloqueada no exterior, por causa da morte de alguém. A pessoa que te envia o email precisa do número da sua conta para que possa depositar 750 000 dólares. Assim que você receber esse dinheiro em sua conta, você terá que depositar 700000 desses dólares numa conta da Somália, que eles te fornecem no email. Você ficará com os 50000 restantes, a título de recompensa. Entretanto, antes de eles te transferirem os 750000, você tem que depositar 3000 dólares na conta deles a título de confiança e compromisso. Só depois disso é que o processo inicia e eles te passam os 750000. Você cairia nessa? Por mais incrível que pareça 38 pessoas caíram nesse golpe aqui na Bélgica, nos últimos 4 anos. No mundo todo foram milhares de pessoas que perderam dinheiro assim. Você deve achar incrível como as pessoas podem ser ingênuas ao ponto de confiar numa informação sem verificar a autenticidade.
Pessoas que agem assim são comumente tidas por burras ou idiotas, ou no melhor dos casos, por tolas. Porque achamos que eles são idiotas e não inteligentes? A resposta é simples. Uma pessoa inteligente usa de seu senso crítico pra tratar as informações que recebe. Estórias são criadas desde que a humanidade aprendeu a se comunicar e qualquer um pode dizer qualquer coisa sobre qualquer assunto. Nem tudo o que se diz é verdade. Só para dar uns exemplos, já se acreditou que o mundo era plano e que o Sol era o centro do universo. Hoje sabemos que não é verdade e chegamos à conclusão que quem defendia essa visão das coisas, por mais “dono da verdade” que parecesse ser, não havia verificado realmente se aquela informação era verdadeira. Se houvesse, teria visto que não era. A informação parecia verdadeira. A informação parecia fazer sentido, mas era, de fato, falsa.
Não é porque muita gente acredita numa coisa, que aquela coisa seja necessariamente verdadeira. Veja bem. Já foi um consenso da ciência fisiológica achar ser impossível, para um homem, correr os 100 metros rasos em menos de 10 segundos. Esqueceram de avisar isso a Carl Lewis e hoje a marca dos 9.86’ de Lewis é coisa do passado, já foi superada por muitos outros e o melhor tempo, atualmente, pertence a Usain Bolt, que cravou 9.58”. No interior do Amazonas, quando uma moça solteira engravidava, se atribuía a paternidade ao boto (uma espécie de golfinho fluvial). Suponho que apenas no Amazonas esse fenômeno ocorria, pois em minha cidade a causa era outra.
Quem é que você acha a pessoa mais apropriada para casar com você? Quem é que você acha mais apropriado para ser professor do seu filho? Quem é que você acha mais apropriado para ser o oncologista que vai tratar do câncer de um ente querido? Quem você escolheria para ser seu sócio num negócio? Alguém que acredite em tudo o que se diz por aí, que não se preocupa nada em saber se o que ouve é verdade e sai por aí repetindo as coisas que escuta sem verificá-las, ou alguém que é ponderado, que verifica direito e analisa bem as informações que recebe? Qual é a credibilidade que tem alguém que afirma a veracidade das coisas sem comprová-las? Pois é. Como diz San Harris:
“embora acreditar firmemente em algo, sem ter provas, seja considerado um sinal de loucura ou estupidez em qualquer outra área da nossa vida, a fé em Deus continua mantendo imenso prestígio em nossa sociedade. A religião é a única área do nosso discurso na qual se considera nobre fingir ter certeza, acerca de coisas que nenhum ser humano é capaz de garantir que estejam certas.
Por que a fé em deus é considerada uma virtude e não um defeito? Porque eu devo acreditar que existe um ser supremo, invisível, infinito, eterno, onisciente, onipresente e inteligente, que criou a matéria, o universo e a vida? Por que eu devo aceitar isso como sendo verdade, se não há uma única prova de que isso seja verdade? Você já parou pra pensar nisso? As pessoas vêm repetindo ao longo de séculos fábulas datadas da Idade do Bronze, escritas por tribos recém saídas da pré-história, como sendo a mais pura verdade e não parecem se preocupar muito com isso. Ao contrário! Elas acham isso nobre e querem convencer outras pessoas a fazerem o mesmo. Muitas delas se afastam daqueles que não estão de acordo em segui-las e, pior! Essas pessoas ensinam aos seus filhos, ainda desprovidos de senso crítico, que aquela é a maneira correta de agir.
Você já viu como criança acredita na estória do Papai Noel? Minha esposa propaga essa fábula, sem a minha aprovação, aos meus filhos, pois ela acha essa ingenuidade infantil “bonitinha”. É incrível ver como meu filho, já com quase 8 anos, acredita piamente que o Papai Noel lhe trouxe e traz presentes a cada ano. Um dia desses ele até se queixou a mim, dizendo que se dependesse de mim e não fosse pelo Papai Noel, ele quase não teria brinquedos. É mole? Ele acredita nisso, pois ele escuta isso das pessoas em quem ele mais confia, os pais, os avós e a professora, além de ver na TV e no período de Natal, entrevistas e imagens com o bom velhinho. Mas ele não atina para o fato que essas coisas não são provas.
Essa crença é, felizmente, facilmente “apagada” das cabeças das pessoas e raramente deixa marcas, mas a crença religiosa molda o caráter e a moral das pessoas de tal forma que pode fazer com que pessoas cometam atos terríveis contra “os de fora” da crença. Eu queria fazer um desafio a você. Porque você não investiga se tudo aquilo o que se diz a respeito de deus é verdade? Pense bem. Existem centenas de religiões no mundo. Elas se contradizem umas às outras e cada uma afirma dizer a verdade. Nesse caso seria impossível que todas estejam certas, já que umas dizem coisas diferentes da outra. Porque a sua é a certa e a outra não? Seria muita coincidência e sorte você ter nascido justamente na família que segue a boa religião, não é mesmo?
Eu não estou dizendo pra você abandonar a sua religião, nem deixar de ler a Bíblia. A religião proporciona muitas coisas boas e a Bíblia é um livro de excepcional valor cultural. Eu estou apenas dizendo que não é sensato se acreditar em qualquer coisa que te contam, e guiar a sua vida por isso, sem que não haja nenhuma prova de que aquilo seja verdadeiro.
Você acha certo fazer seu filho seguir os ensinamentos de um deus sobre o qual não há provas de sua existência? Você acha certo forjar a sua moral e a moral de seus filhos, sob o ensinamento de crenças não comprovadas? Eles são crianças inocentes. Você se importa em saber se aquilo no que você acredita é verdadeiro ou falso? Você acha que seu filho deve seguir a Bíblia como um guia moral? Pense nisso. Esse assunto é muito sério e muito vasto.
Autor: Jerônimo Freitas
Fonte: Bule Voador
Por que não tenho Livre-Arbítrio
Posted by Eric Mendes
Complementando o post do Luiggi, segue um excelente texto de Nikolas Lloyd, traduzido por André Cancian:
Não tenho livre-arbítrio, e isso é ótimo.
É meu cérebro que controla meu comportamento. Ele é, como toda matéria, constituído inteiramente de elementos químicos. Ele é extraordinariamente complexo, com muitos componentes, todos interconectados em um padrão confuso e ainda pouco compreendido. Não obstante quão complicado algo seja, permanece o fato de que em um dado momento, este algo estará em um dado estado de organização. Os elementos químicos estão ligados em combinações particulares, e a energia e a matéria estão movendo-se em direções particulares.
Algum estímulo chega a mim vindo do ambiente. Este é captado pelos meus sentidos e o sinal é enviado ao meu cérebro. O sinal interage com meu cérebro, alterando seu estado físico e químico, tendo como resultado alguma reação de minha parte. Meu corpo, então, segue as instruções dadas pelo cérebro a respeito do que fazer. Houve algum livre-arbítrio nisso? Não, nenhum.
Alguém conta uma piada. Ouço-a. As vibrações sonoras da piada chegam ao meu cérebro através de meus ouvidos e são traduzidas em atividade eletroquímica. As regiões do meu cérebro responsáveis pela linguagem reconhecem o significado das palavras. A piada, que diz “Estas mulheres, como as concebo, são-me aprazíveis”, baseia-se na compreensão da ambiguidade do som cacofônico destas palavras, que podem significar “como as considero” ou “como-as com sebo”. Percebendo que a ambiguidade sonora é jocosa, sou capaz de entender a piada. Meu cérebro registra a hilaridade da piada, e então rio. Mas não decido rir conscientemente. O estímulo da piada teve como resposta meu riso.
Poucos minutos depois, ouço a mesma pessoa contar a mesma piada a outrem. Desta vez, não rio; não rio porque já ouvi esta piada anteriormente. Meu cérebro foi quimicamente alterado na primeira vez em que a ouvi, e agora o som da piada está interagindo com um cérebro que já não é mais o mesmo.
Apesar disso, às vezes tenho a sensação de que realmente tomo decisões. Estou numa loja tentado a comprar um par de óculos de sol, mas não consigo decidir se realmente valem o preço que preciso pagar por eles. Fico ruminando e remoendo sobre a decisão, e então deixo a loja sem comprá-los. Volto para casa pensando o tempo todo se fiz a coisa certa. Ainda assim, não há livre-arbítrio envolvido, mas apenas a ilusão de um.
Era certo que não iria comprá-los. Meu cérebro estava em um estado químico particular quando a oportunidade de comprar os óculos chegou, e dada a combinação particular de circunstâncias — o humor em que estava, a iluminação da loja, o conhecimento de meu estado financeiro —, era certo que decidiria contra o investimento. Minha mente consciente, entretanto, não sabia qual seria a decisão final, e aquilo que senti conscientemente foi apenas a agonia da decisão. Tais decisões difíceis são muito raras.
Algumas pessoas revoltam-se contra a conclusão de que não temos livre-arbítrio. Alegam que isso é deprimente, por algum motivo. Nunca me explicaram, apesar de eu ter perguntado muitas vezes, por que deveria me sentir deprimido ao descobrir que não tenho livre-arbítrio. A ideia de que não temos livre-arbítrio é uma conclusão lógica que pode ser inferida a partir do simples fato de que o cérebro é feito de matéria, e que este interage com o mundo através dos sentidos.
Vejo o mundo em que vivo como um lugar grande e complexo. Consequentemente — apesar de este possuir um certo e confortante grau de previsibilidade — nunca saberei ao certo qual será o próximo estímulo que irei experimentar. Ademais, não tenho acesso a tudo que meu cérebro está fazendo; deste modo, mesmo se pudesse prever os acontecimentos, ainda não poderia prever qual seria minha reação a eles. A vida é uma interessante experiência tridimensional, com visões, sons, cheiros, sabores e sentimentos. Por que deveria reclamar por não ter livre-arbítrio se possuo a perfeita ilusão de tê-lo, e o mundo é tão encantador? De que modo ter livre-arbítrio poderia me tornar mais feliz?
As pessoas falam sobre quão maravilhoso é o fato de termos evoluído um livre-arbítrio. Algumas consideram o livre-arbítrio algo tão estupendo que as convence de que um deus deve ter criado os seres humanos, e que o livre-arbítrio é alguma mágica especial que os homens possuem. Na verdade, não evoluímos um livre-arbítrio absolutamente; em vez disso, evoluímos a consciência e ailusão de um livre-arbítrio. Frequentemente, para nós, de fato parece que poderíamos ter decidido agir de um modo diferente do qual agimos.
Então por que evoluímos a ilusão de um livre-arbítrio? Parcialmente, isso está relacionado ao fenômeno da consciência, mas também ao autoengano. Se conseguir enganar a mim mesmo, pensando que sou uma boa pessoa, então terei muito mais êxito em enganar os outros e fazê-los pensar o mesmo. Na realidade, no fundo, todos os nossos instintos atuam em função da autossatisfação. Apenas sou uma boa pessoa porque, em longo prazo, sê-lo me é conveniente. Se me convencer profundamente de que sou uma pessoa boa, então não irei ceder à tentação de ser mau em troca de uma vantagem de curto prazo. Serei uma pessoa boa de modo consistente, e os benefícios da bondade são muito maiores àqueles que agem assim. A ilusão do livre-arbítrio faz sentir que estou escolhendo ser bom, e, se estou escolhendo ser bom, tendo a escolha de ser mau, então devo ser realmente uma pessoa boa, certo?
Pessoas que foram hipnotizadas para gritar “Golaço!” com toda a força todas vezes que alguém usasse a palavra “Chute” darão motivos totalmente espúrios se forem questionadas sobre o motivo de terem gritado. Elas fazem o que fazem apesar de não saberem o porquê. A ilusão do livre-arbítrio nos protege de nossos verdadeiros motivos. A psicologia evolutiva é em grande parte o estudo de nossos motivos subconscientes. Aqueles que a estudam constatam repetidamente que nossos motivos simplesmente acontecem de coincidir com a estratégia que maximizaria o número de genes que poderão ser repassados. Homens não escolhem pensar que mulheres de vinte anos são mais atraentes que as de oitenta anos — simplesmente pensam assim. E simplesmente acontece que homens que pensam assim podem transmitir mais genes, pois mulheres de oitenta anos não podem engravidar. Isso não é coincidência. Similarmente, pessoas que foram enganadas por irmãos têm muito mais chances de conceder perdão do que aquelas que foram enganadas por indivíduos sem parentesco. O perdoador potencial compartilha genes com seus irmãos, e por isso há um interesse genético compartilhado. A pessoa que foi enganada pode sentir que tem a opção de não perdoar seu irmão, mas perdoar seu amigo, contudo não tem. A ilusão do livre-arbítrio evita que o indivíduo perceba a verdade, e assim aja mais eficientemente em função de seus genes. Se o indivíduo soubesse a verdade, poderia começar a agir contrariamente aos interesses de seus genes. Talvez algumas pessoas no passado tenham feito isso, mas provavelmente não se tornaram nossos ancestrais (mas, ainda assim, não tinham livre-arbítrio).
Bem, então não tenho livre-arbítrio. Posso sentar-me e aproveitar esta viagem de montanha-russa que é a vida. Nem mesmo sei o que farei daqui a pouco. Interessante, não?






